Poder e autoridade

 Poder e autoridade


Sobre o tema, diz Armindo Laureano (Novo Jornal) referindo-se ao segundo ditador da nossa independência, o senhor José Eduardo dos Santos.


"Foi esvaziado pelo tempo, pela falta de poder, pelo sistema que ele próprio criou e alimentou e pelas desilusões. Foi abandonado e desonrando por muitos dos seus camaradas..."


Com os meus respeitos ao autor permito-me esclarecer algo muito deturpado entre os actores e comentadores políticos da nossa praça:


Poder e autoridade são distintos, pelo menos em português ou em qualquer língua baseada em etimologia (expressões de rua não deveriam poder influenciar o maravilhoso sistema de comunicação humano, falado e escrito). 


Qualquer militarista tem poder, qualquer autocrata dá ordens e, no poleiro do poder, qualquer besta tem assento com base no seu historial de violência e intimidação. É uma forma de comando ainda adaptável em locais em que a cidadania faz de conta.


Em oposição, a autoridade está reservada as entidades seguras da sua personalidade, conhecimento e liderança, assentes no consentimento popular. Vão sendo cada vez mais raros os casos de autoridade pelo mundo, com particular destaque no continente cauda e em outras arenas políticas pela america-latina e algumas regiões asiáticas.


A fraude não gera autoridade; mantém o bruto no poder, mesmo que quase sempre sobre areias movediças e camaradagens pantanosas como foi o caso de José Eduardo dos Santos.


JES desgovernou por mais de trinta anos sem estatísticas e quando tentou ou fingiu tentar conhecer a demografia do país, os seus correligionários mascararam a sua (des)governação com um crescimento demográfico lírico e inexistente, recorrendo a alta fecundidade de um povo com mais nada que fazer senão filhos e escondendo-lhe a realidade de uma alta mortalidade entre os filhos dos outros. Entre o regime tudo bem e sempre a subir!


O ditador tinha poder: entre os seus, ninguém o criticava pelos "desaparecimentos" de pessoas e descaminhos de fundos públicos; ninguém exigia uma governação como tal. Comissões de trabalho só conheceram o lazer e provocaram a desgraça e o desencanto; cidades, aldeias becos e vielas em estado de podridão geral, mictórios de estimação; edifícios herdados do colonialismo sem elevadores, geradores por todo o canto e um analfabetismo vigorosamente crescente com as consequências bem conhecidas apenas pelos que trilharam exitosamente os caminhos de ensino ministrado pelo sistema colonial português. Abusou e conspurcou como pode e quis mas pagou com a falta de autoridade. Tentando zerar a máquina destrutiva e corrupta do seu MPLA, conheceu um poderoso manguito: roubaste para ti e os teus e agora queres impedir-nos de seguir o teu exemplo? Estamos bem assim! É esta uma consequência visível da falta de autoridade. 


A este respeito (autoridade), António José Fernandes, politólogo português, frisou: "o Papa governa sem armas!" Entendidos agora?


Pelo prazer da subjugação e pelo medo e ignorância dos subjugados, nem os governantes nem os governados no seio do continente cauda terão jamais noção de valor e diferença entre poder e autoridade, pelo que continuarão abertas as vias de fuga aos paraísos da civilização. 


Laurindo Neto

(2023/06/03)

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